terça-feira, 30 de dezembro de 2008

Tópicos

A luz do trem, quando vem, pela ponte, dá no meu quarto.
Pelo vidro da janela e bate no armário.
Como ele é branco, ilumina tudo.
Dá pra ver tudo o que tenho preguiça de mudar por aqui.

O som dos carros da marginal, me faz sentir, às vezes,
que estou perto do mar.
Parece.

Quando chove, um quase imperceptível, cheiro ruim, vem do rio Tietê.
Mas eu só sinto quando procuro.

Se eu me deitar de bruços, fico incomodado, se me deitar de barriga pra cima,
tenho pesadelos: então me restam duas opções: me virar pra esquerda, quando me distraio vendo o móvel do computador, comparando-o com um rosto, ou pra direita, quando me distraio com as pequenas, minúsculas, bolinhas da tinta da parede.

A pior parte de escovar os dentes é perder o último gosto do suco de goiaba.

Era só falar: ...
Nem imaginando consigo saber o que falar. Imagina lá. Meio bêbado ainda.
Porque bêbado fico "ainda mais". "Ainda mais" em tudo.
Se não podia falar; bêbado, não podia ainda mais.

segunda-feira, 24 de novembro de 2008

sábado, 25 de outubro de 2008

da graça e do Lirismo da rima luso-portuguesa:

Olhos azuis são ciúme
e nada valem para mim,

Olhos negros são queixume
de uma tristeza sem fim,

Olhos verdes são traição
são crueis como punhais,

Olhos bons com coração
os teus, castanhos leais.

sexta-feira, 17 de outubro de 2008

Disse o Idiota, subindo no caixote:

Paciência é um jogo pra poucos.

quinta-feira, 9 de outubro de 2008

Blues in the Closet

Faz carinho nele.

Não quero...

Faz! Ele é bonzinho, pode encostar!

Não. Tenho medo.

Que medo o quê. Olha só que gostoso que é. Pega!

...

Viu? Viu como ele gosta? Passa a mão aqui, mais perto da cabeça... Isso, assim. Não precisa ficar com medo.

Quero ir embora.

Como assim?

Quero ir pra casa!

Mas não tá gostoso aqui? Amanhã cedinho eu te levo pra casa, prometo.

Eu quero a mamãe!

Mamãe tá trabalhando hoje, amorzinho... Mas amanhã já volta. Vem, vou te levar pro seu quarto. Já tá na hora de ir pra cama.

[fecham-se as portas.]

sexta-feira, 26 de setembro de 2008

sorrindodia

Fez-lhe as coceguinhas de toda a noite, em toda a parte e de toda sorte, e os dois riam-se e pulavam feito crianças debaixo da colcha de piquet e do edredon e do lençol de flanela que ela já tinha jogado prum lado da cama porque sentia calor demais com aquela coisa.

Olhavam-se no escuro e adivinhavam ali o olho um do outro e a boca do mesmo jeito e a brincadeira virava uma coisa outra, e essa coisa outra ia se escorregando pra outros cantos junto com a roupa que todos já sabiam desde o começo que não ia durar muito.

Acordavam com um solzinho frio na janela, debaixo das cobertas se abraçavam pele na pele e nadamais, felizes feito uns animaizinhos tão lindinhos que viviam conforme o paraíso lhes despontava na cuca.

quarta-feira, 24 de setembro de 2008

Barro

Caindo de joelhos no barro o velho falava sozinho: "Agora é Deus pra me ajudá!". Com a voz tremendo.
Disse isso e começou a procurar o quão rápido sua idade permitia. Engatinhando.
A alvura de seu cabelo contrastava com a negritude de sua pele. E principalmente com o fundo: mata escura, de noite sem lua.
Barulho? Só de grilo, bicho pequeno que corria e, lá longe, gritos de socorro. Gritos de mulher.
Eram das filhas do velho de joelhos.
Velho que só tinha de fazer uma coisa: buscar a carta do Coronel no casarão vizinho. Só isso.
No caminho, na pressa, derrubou, mas não viu. Quando voltou, abriu a mão e gelou. Voltou pra procurar e se acaso o chamassem: ainda não tinha voltado. Sabia que chegar sem a carta era pior.
O Coronel tinha pressa, e agora, ele também. "Que será das minha minina?!".
Procurar naquele barro molhado, pressa e pressão dos gritos das filhas. Não dá certo.
Não deu!
Quando parou de ouvir o grito duma delas, a mais nova, correu o mais rápido que pôde. Mas a pressa só piorou, chegou a tempo de ver a outra também ser morta. Da porta.
O coronel, do alto das botas, trombou nele ao sair: - Pra nêgo preguiçoso ir mais rápido da próxima vez!

Sujo de barro. Aterrorizado e parado na porta.
Não se aguentava de dor, de horror e de pena.
"Pena que eu deixei cair o diamante".